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Pulsões e sua relação com o criar filhos

Calmos apesar da expectativa, sentados confortavelmente na escuridão, estamos a um segundo do começo do espetáculo. Um spot se acende. Sua luz forte passeia pela sala. Fisgado nosso olhar, o facho dirige-se a um ponto do palco e se fixa num objeto de todos conhecido, porém inusitado para o tema da peça: um cocar.

Esta pode ser a cena inicial de um espetáculo teatral e é uma boa metáfora para diversas situações. Por exemplo, como metáfora do desejo, poderia compor uma alegoria para a situação descrita a seguir.

Imersos no dia-a-dia, contemplando confortavelmente a paisagem da vida em sua mesmice, um dia somos fisgados por um desejo inusitado: ter um filho. A vontade chega de repente, sem aviso, pois elas têm essa mania: acontecem. Apesar de ser fenômeno conhecido, sempre nos pegam de surpresa, não esperávamos que acontecesse conosco naquele momento específico de nossas vidas.

Reconhecido o objeto em foco, o cocar na peça ou o filho na vida, a tensão inicial se esvai, dá lugar à curiosidade.

Na peça, meros espectadores, deixamos que ela continue, concedemos ao seu autor uma chance, o benefício da dúvida: magnânimos, consideramo-lo inocente, isto é, capaz de nos proporcionar prazer e conhecimento, até prova em contrário. Veremos, dali a pouco, se ele mereceu nossa confiança, se o que tinha a dizer e a maneira como o fez foi interessante, se nos acrescentou alguma coisa.

Na vida real somos espectadores e também protagonistas mas a tentação de deixar que como no teatro tudo se resolva por si mesmo é sempre muito grande.

A lambança da inércia, mancomunada à idéia de que a intuição tudo resolve é o equivalente na vida real ao roteiro na peça teatral. Faz com que aceitemos passivamente o desenrolar das situações, concedamos à vida o benefício da dúvida, passemos a considerar que não temos nenhuma responsabilidade nesse progredir dos acontecimentos. Basta esperarmos sentados que tudo se resolverá.

Nada mais certo, a vida afinal é assim mesmo, porém nada mais equivocado ao mesmo tempo.

Certo porque o processo inteiro de viver nos foi imposto e é parcialmente intuitivo, realmente.

Errado porque tudo fica mais fácil quando se acolhe essa idéia-vontade de ter filhos, direito.

Mais fácil, mais lógico e com melhores resultados. Há que se lapidar aquela opinião simplória, não podemos nos esquecer que somos autores, diretores, iluminadores, protagonistas, tudo junto, de nossas próprias vidas. E vamos utilizá-la integralmente para proporcionar a outro ser o seu próprio desenvolvimento.

Criar filhos é um aprendizado. Mútuo. Deve ser tarefa lúdica, onde a criatividade prime. Gregária por excelência, não precisa ser coisa imposta pela vida, nem nunca é atividade apenas intuitiva.

Pelo contrário. Contribuir para o desenvolvimento de alguém que está inserido em uma sociedade complexa como esta nossa, na verdade é dificílimo, porque, além da simplicidade animal corriqueira, fixa, sempre existe, nas gentes, um acréscimo passional, um entrecruzar de vontades, não somos apenas instintivos, não somos iguais aos animais irracionais.

Aqui seria interessante analisar a diferença que existe entre o que os especialistas chamam de pulsões e o que chamam de instintos.

Essa distinção foi estabelecida por Sigmund Freud, na sua teoria das pulsões em 1905.

Nela, as pulsões são postuladas como exclusividade dos seres humanos enquanto os animais têm apenas instintos.

O instinto é um comportamento animal, hereditário, quer dizer, passa de pai para filho, fixado, ocorre sempre da mesma forma em todos os indivíduos de uma espécie, pré-formado no seu desenvolvimento e adaptado ao seu objetivo. Os rituais de acasalamento, as migrações para desova, são exemplos de instintos animais.

Subjugados aos próprios desejos, subjugados às pulsões (como se conceitua em psicanálise a categoria dos desejos humanos para diferenciá-los dos instintos que originam os comportamentos dos animais), irmãs mutantes mais sofisticadas dos instintos, temos curiosidades variáveis, que se tornam fontes infindáveis de prazeres mas também de decepções. Gravitamos, por causa delas, em planos diferentes dos planos habitados pelos animais.

A pulsão, tem uma fonte, um estado de tensão interna; tem um alvo, um objetivo, que é acabar com a tensão em sua fonte, e tem um objeto que é aquilo que vai permitir à pulsão atingir seu alvo.

O desejo de ter um filho pode ser o resultado de diversos outros desejos, que se organizaram nessa vontade resultante. É um desejo complexo, variável de pessoa para pessoa, aparece em momentos diferentes para cada um de nós, às vezes pode nem aparecer dessa forma, pode ser reprimido ou mesmo mudado em seu objeto (ter uma profissão por exemplo, em vez de ter um filho). É portanto, exemplo de uma pulsão, no caso dos seres humanos.

Os animais agem automaticamente, sem pensar, sem ponderar, sem comparar, ao sofrer o impacto instintivo; nós, seres humanos, submetidos às pulsões, somos levados a outras qualidades de ações e mobilizações. Podemos nos defender das pulsões, podemos reconhecê-las, podemos pensar nelas, podemos, até certo ponto inclusive, mudar sua direção e objeto. Pulsões, portanto, são mais maleáveis, podem ser razoavelmente reconhecidas, são mais nítidas, melhor desenhadas que os instintos, mais vivenciadas, podem até ser buriladas.

Assim, o ofício de cuidar da “cria” não é apenas instintivo para os humanos. Como tudo que fazemos decorre e é regido pelas pulsões, a sua realização proporciona a fruição de paradoxais prazeres, prazeres pulsionais, muito mais complexos que os proporcionados pelos instintos, porque, de forma diferente dos prazeres instintivos, os prazeres pulsionais não são apenas automáticos, não são fixos, não são exclusivamente genéticos, são forças internas que variam de pessoa para pessoa, proporcionam prazeres obtidos de complicadas negociações, em conseqüência de árduo aprendizado, reflexos de ajustes frente a dificuldades circunstanciais e conjunturais que são contra sua realização.

O processo de proporcionar o melhor desenvolvimento possível aos filhos tem a ver com a arte de engendrar combinações de pulsões inspiradoras, de forma a propiciar a eles novas experiências, potencialmente prazerosas. As combinações de desejos por eles desconhecidos, serão então mostradas em ação e oferecidas à degustação do principiante. Em seguida, a função dos pais é observar como se processa neles a aceitação das novidades e a escolha que fazem dos caminhos para a realização prazerosa possível, acompanhando seu esforço nesse sentido e ajudando-os a suplantar as eventuais dificuldades na tarefa.

Cada pessoa descobre como lidar com suas pulsões, encontra soluções para esses problemas fazendo coisas que têm a ver com o seu jeito específico de ser.

Quando Freud postulou o conceito de pulsão, no começo do século XX, em 1905, os avanços da ciência médica ainda não possibilitavam compreender como se processava organicamente o aparecimento dos desejos. Atualmente, conhece-se muito mais a respeito. As experimentações com ressonância magnética funcional, corroboraram a existência das pulsões, identificando os circuitos cerebrais neuronais, particularmente os circuitos do sistema límbico, relacionados com a recompensa.

Muitas drogas de abuso atuam nesses complexos sistemas cerebrais promovendo um curto-circuito de prazeres, como que originando pulsões autônomas que têm como objeto, neste caso fixo, justamente a droga de abuso, provocando então as adições às drogas.

É importantíssimo compreender esse detalhe para manejar as situações relacionadas com o abuso de drogas de forma adequada.

Mais considerações a respeito desse tema, "abuso de drogas" serão colocadas no site oportunamente.

 

Artigo do Dr. José Roberto Campos de Oliveira.

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