Querida consulente:
Sua carta é propriamente uma letra de música, daquelas bem sofisticadas, que grandes poetas populares fazem sobre a alma feminina. Vou mostrá-la a um poeta amigo para transformá-la em decassílabos cantáveis. Nascerá uma nova linda canção, com certeza.
Você tem três alternativas:
1 - acabar imediatamente com tudo isso, enquanto não existe ninguém machucado ainda, em nenhum nível. Não contar para ninguém essa aventura. Voltar para casa, metaforicamente dizendo, para seu marido e filhos, renovada, com uma história de amor para não contar para ninguém, nunca. Servirá, talvez, como inspiração para o resto da sua vida. O chavão é verdadeiro: não se pode ter tudo na vida. Sempre abdicamos de alguma coisa. Sempre. Viver outro grande amor é raro, é benção, mas dói. Dói em todo mundo. Mas, viver um grande amor, que por si só já é raro, você já viveu, com seu marido, antes, não é? Tem até filhos! E agora, ainda estuda numa faculdade! Que gulosa! Quantos amores são necessários para se levar uma vida feliz? Não existem outros prazeres para se ter na vida que tragam outra forma de felicidade? Ajudar o próximo por exemplo? Aprofundar seus estudos na área que você escolheu, para ajudar mais e melhor a humanidade? A sublimação também é uma benção. É uma capacidade humana, transformar uma coisa, uma tendência, um desejo, não aceitável socialmente, em outra coisa "aceitável", mais fácil para todo mundo e que também traz muitos prazeres. Sofisticados na maioria das vezes. Aqui, a boa indicação seria aprofundar-se no conhecimento maior de seus filhos e do sexo com seu marido que ainda pode lhe dar muitas coisas, como você mesma diz. Os relacionamentos sempre podem ser melhorados. Em todos os níveis. Você poderia considerar o que aconteceu como um sinal de que as coisas não vão bem e lutar para melhorá-las. Estaremos condenados a sempre concretizar todas as paixões sexuais quando temos alguma dúvida? Ou então,
2 - assumir tudo, machucar todo mundo, trazer insegurança para os filhos, infernizar a vida do marido e da mulher respectivos. Isso acontece nas melhores famílias. Não deveria acontecer, mas pode acontecer. Aliás, vive acontecendo. Ou então,
3 - aprofundar-se nos seus abismos pessoais. Antes de optar, começar uma psicanálise. Pensar e repensar melhor no que lhe convém, baseada em uma melhor compreensão de seu passado e das suas buscas existenciais da atualidade. Qualquer opção sua, após uma análise, será, no mínimo, mais abalizada, atitude ótima para quem tem tanta coisa a perder e/ou ganhar. Aliás, pensando bem, considero que, você deveria começar imediatamente sua análise, independentemente da sua opção pela alternativa 1 ou 2 se for o caso de necessidade imperiosa de escolha imediata de uma ou outra. Você está precisando muito conversar mais com você mesma.
No mais, qualquer que seja sua escolha, desejo a você que seja razoavelmente feliz, razoavelmente rica, razoavelmente saudável, como não consegue ser a grande maioria das pessoas.
Um grande abraço.
Artigo do Dr. José Roberto Campos de Oliveira.